O Estado de Israel e o Terrorismo no Oriente Médio


Os tristes eventos recentes na Palestina Ocupada, iniciados em pleno Ramadã, faz com que nos deparemos com ondas de islamofobia propagados por pessoas e organizações que se beneficiam com a difusão da ignorância.


O que fundamentalmente se coloca em questão é a narrativa de um enfrentamento entre um Estado de Israel, legítimo, contra um Hamas que não passaria de um grupo terrorista. De um modo geral, é isso que encontramos na mídia de massa, nas redes sociais e mesmo em conversas informais.


Não temos a menor pretensão, aqui, de fazer apologia ou elogio do Hamas, organização que deve ser estudada e entendida dentro de seu contexto histórico e geográfico, mas de problematizar essa narrativa hegemônica de embate entre “Estado de Direito e Terrorismo” e mostrar pelo menos alguns dos seus furos.


De início, já poderíamos dizer que os problemas começam quando descobrimos que a palavra “terrorismo” não possui objetividade. Ela é sempre utilizada para designar as ações de um adversário político, sempre que este adversário consiste em um ator geopolítico não estatal. Não raro, porém, se designa como “terrorista” uma instituição ou órgão estatal perfeitamente legítimo e legal, como recentemente ocorreu com a Guarda Revolucionária do Irã, que não é uma milícia, grupo paramilitar ou bando armado, mas um dos ramos das Forças Armadas Iranianas.


Naturalmente, esse é um assunto complexo por causa da ausência de definições sólidas sobre o que é “terrorismo” e quem é ou não é “terrorista”. É possível encontrar todo tipo de acusação lançada contra todo tipo de grupo, de várias ideologias, várias religiões, até contra governos.


Mas, usualmente, quando se fala em terrorismo na mídia de massa hoje (especialmente após o desaparecimento ou pacificação de grupos como IRA, ETA, RAF e outros da Europa), se está falando de algo um pouco mais circunscrito geograficamente. Geralmente se fala em algo especificamente vinculado à história das últimas décadas do Oriente Médio.


Se essa é a circunscrição geográfica e histórica do fenômeno do “terrorismo”, as coisas ficam mais fáceis, porém. Porque o terrorismo no Oriente Médio não nasceu com a Al-Qaeda ou o ISIS.


A realidade é que quem deu início ao fenômeno do “terrorismo”, como ele é conhecido atualmente no Oriente Médio, foram as camadas mais extremistas do movimento sionista (mais especificamente, adeptos do chamado “sionismo revisionista” de Vladimir Jabotinsky).


Provavelmente, o primeiro grupo terrorista sionista atuante no Oriente Médio foi Bar-Giora fundada em 1907, quando a Palestina ainda pertencia ao Império Otomano. Bar-Giora havia sido o nome de um salteador, assassino e criminoso comum que se tornou um dos líderes da revolta dos hebreus contra os romanos no século I d.C.


A Bar-Giora sionista do século XX foi fundada por Israel Shochat e Yitzhak Ben-Zvi (que se tornaria o 2º Presidente de Israel), após sua participação no 8º Congresso Mundial Sionista, depois que eles retornaram para a Palestina. Bar-Giora era um grupo paramilitar cujo objetivo era construir um exército secreto para organizar uma insurreição armada para impor um Estado judaico na região. O lema desse grupo era: “No sangue e no fogo a Judéia se erguerá”.

A Ben-Giora durou apenas até 1909, porém, sendo expandida e convertida na Hashomer, uma organização paramilitar que operava como uma milícia, cobrando pela proteção de assentamentos judaicos. Segundo os relatos da época, porém, a Hashomer era extremamente violenta e tendente a atirar primeiro, perguntar depois.


A Hashomer se transformou, em 1920, na famosa Haganah, a principal organização sionista armada da Palestina, até que ela se tornou a base das Forças de Defesa Israelenses após a criação do Estado de Israel. Em geral, a propaganda jornalística dos anos 20, 30 e 40 sempre fez questão de distinguir a Haganah de outras organizações, consideradas “violentas” e “terroristas”, enquanto a Haganah se limitaria à defesa.


Mas essa narrativa de que a Haganah seria meramente defensiva é um mito construído pela própria mídia sionista internacional. Ao longo de toda a sua existência, e especialmente a partir do final dos anos 30, a Haganah esteve envolvida em ataques terroristas contra instalações britânicas no Levante, especialmente através da Palmach, a organização de elite da Haganah, composta por veteranos de guerra.


A Palmach teve entre seus principais comandantes Yitzhak Sadeh e Moshe Dayan, posteriormente generais das Forças de Defesa Israelenses, além de Yigal Allon e Yitzhak Rabin, posteriormente Primeiros-Ministros de Israel.


A sua especialidade eram as ações de sabotagem contra instalações petrolíferas, pontes e ferrovias. Apenas em 1945 eles estiveram envolvidos em mais de 150 ataques terroristas. Em 1946, eles chegaram a atacar uma delegacia em Shefa-Amr,